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Biópsia Hepática Percutânea

Dr. Stéfano Gonçalves Jorge

        A primeira biópsia hepática para fins diagnósticos foi realizada em 1923. Desde então, a técnica tem sido modificada e, graças à sua baixa morbidade e mortalidade, têm sido usada amplamente para diagnóstico na área de Hepatologia. A análise histológia é fundamental no diagnóstico de doenças como hemocromatose, hepatite autoimune, colangite esclerosante e cirrose biliar primária, sendo também necessária no estadiamento e controle de tratamento das hepatites virais.

        São descritas três de técnicas, a saber, percutânea, transjugular e laparoscópica, sendo que as duas últimas são indicadas em pacientes com coagulopatia que não permitam a técnica percutânea. Em relação à esta, opto por realizar a biópsia pelas vias mais seguras, a transtorácica e a subcostal ( em casos de hepatomegalia ), guiada por ultra-som ( permite acesso à uma faixa mais larga de parênquima hepático e reduz o risco de punção de órgãos adjacentes ).

Utilizo a seguinte técnica: os pacientes, em posição supina, são submetidos a venóclise periférica com administração lenta de soro glicosado a 5%. Após limpeza local e colocação de campo estéril, o paciente recebe anestesia local com lidocaína com epinefrina 1:20.000 guiada por ultra-som. A biópsia é realizada com agulha trucut 16G ( que combina a vantagem de baixo risco pelo menor calibre e no entanto fornece material adequado ao exame histopatológico ), também guiada. Após o procedimento, são observados clinicamente, sendo aferidos pulso e pressão arterial de 15 em 15 minutos nas primeiras 2 horas e de 30 em 30 minutos nas 4 horas seguintes. Ao final da observação ( no mínimo 6 horas ), são submetidos a novo exame ultra-sonográfico a fim de detectar líquido livre na cavidade abdominal. O paciente somente é dispensado se não apresentar instabilidade hemodinâmica, líquido livre abdominal ou outras complicações. 

        A biópsia hepática percutânea é um procedimento seguro, sendo descrita uma taxa de mortalidade variando entre 0,1 e 0,01%, incluindo pacientes com neoplasias e insuficiência hepatocítica com distúrbios da coagulação. De fato, a principal causa de mortalidade relacionada ao procedimento é a hemorragia, que se apresenta clinicamente nas primeiras 6 horas após a biópsia. A morbidade é baixa, sendo a mais comum dor ( 1,5 a 3,0% ), hemorragias subclínicas ( 0,35-0,5% ) e punção de órgãos adjacentes ( 0,01 a 0,1% ). São considerados como fatores de risco no procedimento a experiência do médico, a técnica utilizada ( preferencialmente guiada por ultra-som ) e o número de passagens ( ou tentativas ).

        A biópsia hepática percutânea guiada por ultra-som é portanto segura em pacientes selecionados, ou seja, excluídos aqueles com condições que aumentem o risco de hemorragia ( 6 a 10 vezes ), a saber, encefalopatia, ascite, insuficiência hepatocítica com icterícia severa e evidência de obstrução biliar extra-hepática, coagulopatia significativa, doenças graves em outros órgãos ( como insuficiência cardíaca congestiva ) ou idade avançada. A equipe de biópsia hepática do Dr. Ademar Yamanaka no Gastrocentro-Unicamp já tem experiência em mais de 500 pacientes que foram submetidos a biópsia nestas condições e foram para casa no mesmo dia, sem internação, com 0% ( zero ) de complicações ( dados ainda não publicados ).

 

Bibliografia:

Grant, A., Neuberger, J. Guidelines on the use of liver biopsy in clinical practice. Gut, 45 ( suppl IV ), 1999;

Jacobs W. H., Goldberg, S. B. Statement on out-patient percutaneous liver biopsy. Dig Dis Sci 34:322-3, 1989;