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Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
Chamamos de
dispepsia os sintomas relacionados ao abdome superior, comumente
chamados de "indigestão". Esses sintomas são vários,
incluindo dor, eructação (arrotos), empachamento, peso, pirose (queimação), náusea ou saciedade precoce.
Freqüentemente,
as pessoas confundem os sintomas acima com
gastrite.
Gastrite é uma inflamação no estômago, que pode ou não causar esses
sintomas. Do mesmo modo, nem sempre a dispepsia está associada a
gastrite.
Estima-se que 25%
de todos os adultos tenham sintomas dispépticos ao menos alguns dias
por ano e a maioria desses terão esses sintomas ocasionalmente por toda
a vida. Cerca de 7% das consultas médicas são feitas por dispepsia e
mais da metade das consultas com gastroenterologista.
Cerca de 50% das
endoscopias
realizadas por dispepsia não encontra qualquer anormalidade e são
classificados como portadores de
dispepsia
funcional. Mesmo com a endoscopia normal, isso não significa que
não exista uma alteração. As dispepsias funcionais abrangem um grupo
complexo da anormalidades na contração gástrica, refluxo sem
erosões, alterações na sensibilidade, lesões por medicamentos (anti-inflamatórios, antibióticos), dieta (álcool, café), diabetes
e outras.
Úlceras pépticas são
encontradas em cerca de 20% e
esofagite de refluxo
em 15-20% das endoscopias.
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Causas
de dispepsia |
| Gastrintestinais |
intolerância a alimentos (tomate, pimenta, álcool,
gorduras, café) |
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úlcera péptica |
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refluxo gastroesofágico |
| câncer do estômago |
| gastroparesia (distúrbio da contração do estômago) |
| doenças infiltrativas do estômago (amiloidose, Ménétrier) |
| síndromes de má-absorção, intolerância a lactose |
| parasitoses (Giardia lamblia) |
| AIDS |
| isquemia intestinal crônica |
| desordens funcionais (dispepsia não ulcerosa, aerofagia,
síndrome do cólon irritável) |
| Medicações |
anti-inflamatórios não esteroidais, teofilina, digitálicos,
potássio, ferro, niacina, quinidina, antibióticos, álcool |
| Trato biliar |
colelitíase com cólicas biliares, colecistite aguda,
disfunção do esfíncter de Oddi, câncer
hepatobiliar |
| Pâncreas |
pancreatite crônica, câncer
do pâncreas |
| Sistêmicas |
diabetes, tireoidopatia, hiperparatireoidismo, insuficiência
renal crônica e coronariana, gravidez, colagenoses vasculares,
câncer intra-abdominal |
| Outras causas |
porfiria aguda intermitente, radiculopatia diabética,
compressões nervosas, hérnia interna ou intussuscepção,
obstrução intermitente do delgado |
Outra confusão
freqüente ocorre entre dispepsia e ansiedade. Um
diagnóstico completamente errôneo e que costuma ser dado é o de "gastrite
nervosa". Ansiedade, stress e depressão aumentam ou fazem
surgir sintomas causados por doenças pépticas (úlceras,
gastrite,
refluxo
gastroesofágico) ou participar do processo de
dispepsia
funcional. A ansiedade leva a alterações da contração gástrica,
aumento na secreção de ácido e na sensibilidade do estômago à dor.
Portanto, o "nervosismo" faz surgir ou piorar os sintomas
decorrentes de uma gastrite, mas não provocá-la. Do mesmo modo, os
mesmos sintomas podem existir sem a gastrite.
Pelos sintomas,
é quase impossível distinguir entre as causas de dispepsia funcional.
O mais importante é observar os "sinais de alarme",
que não significam necessariamente uma doença grave, mas é nessas
pessoas que o risco é maior de se encontrar uma doença que necessite
diagnóstico e tratamento urgentes, como câncer ou úlceras com
complicações.
| Sinais de
Alarme em portadores de dispepsia |
| Perda de peso |
| Vômito persistente |
| Disfagia (sensação de que comida está
parada no esôfago) |
| Anemia |
| Sangramento |
| Maiores de 45 anos |
A
endoscopia
digestiva alta continua sendo o método de escolha para
investigação das dispepsias, uma vez que é altamente preciso no
diagnóstico da maioria das causas, é bem tolerado, seguro e, no
Brasil, de baixo custo. Exames radiológicos contrastados, apesar de
mais baratos, são pouco precisos. A ecografia pode ser utilizada para a
investigação de doenças pancreato-biliares, assim como a tomografia
computadorizada.
A decisão de se
investigar ou não a dispepsia depende de diversos fatores, como a
facilidade e o interesse do paciente de ser submetido a exames. De um
modo geral, é possível fazer um tratamento empírico (sem o
diagnóstico) na maioria dos casos, desde que essa pessoa não tenha os
sinais de alarme acima, que tornam a investigação obrigatória.

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